Às 22h15 da noite de segunda-feira, 12 de maio de 2026, Jang Mi-ran saiu de casa em Hallim-eup, na costa ocidental da ilha sul-coreana de Jeju. Não levava nada além do telemóvel. Trazia chinelos.
Tinha trinta e sete anos. Um metro e cinquenta e oito. Magra. Uma pulseira de ouro no pulso. Vivia naquela ilha há dez anos. Não era visitante. Aquela era a casa dela.
Andou dez minutos.
Cento e quatro dias depois, encontraram-na num palmeiral, a quatrocentos metros da sua própria porta. Cinco minutos a pé, andando devagar.
O Botão


Às 18h43 do dia 15 de maio, o namorado apresentou uma participação de desaparecimento na esquadra ocidental de Jeju. Disse que tinha acordado de manhã e ela tinha desaparecido. Sem palavra. Sem levar nada.
Às 21h16 dessa mesma noite — duas horas e trinta e três minutos depois — o sargento Bu já tinha encerrado o caso.
Disse ao namorado que tinha contactado com ela. Que estava bem. Que não queria que a família soubesse. Depois abriu o sistema de perfilagem de pessoas desaparecidas da polícia coreana, inseriu o código de «morte em acidente de viação» e apagou o nome de Jang Mi-ran da base de dados.
Nunca lhe tinha ligado. Nem uma vez.
Nessa mesma noite, e até à manhã seguinte, o telemóvel de Jang continuava a emitir sinal. O último sinal chegou às 9h44 do dia 16 de maio, perto do porto de Hallim. Ou seja: ela — ou o telemóvel dela — ainda estava algures, localizável, quinze horas depois de o namorado ter participado o desaparecimento. Doze horas e meia depois de o sargento Bu ter encerrado o processo dela.
Uma chamada. Uma única chamada, nessas doze horas e meia, e teriam sabido onde procurar.
Ninguém ligou.
O Sargento

O nome completo não foi divulgado. Tem trinta e cinco anos. Sargento na esquadra ocidental de Jeju.
Em 2023, foi encaminhado para uma comissão disciplinar interna por violência doméstica. Recebeu o que a linguagem burocrática coreana chama uma «advertência informal» — registada no processo, sem mais consequências.
Em julho de 2026 — dois meses depois de ter apagado o processo de Jang Mi-ran — entrou na casa de banho das mulheres da sua própria esquadra. Foi preso. Suspenso de funções. Abriu-se um inquérito interno. O lugar dele na unidade de desaparecidos manteve-se seu.
Entre março de 2025 e agosto de 2026 — dezoito meses na secretaria de desaparecidos — o sargento Bu encerrou unilateralmente 298 casos de desaparecimento exatamente da mesma forma. A imprensa coreana deu um nome ao que ele fez: encerramentos automáticos à máquina de vending. Carrega-se num botão, um processo desaparece.
O sistema permitia-o. Não exigia assinatura de superior. Não exigia verificação. Exigia consciência.
O Outro Processo
Jang Mi-ran não foi a única.
A 2 de julho, a mulher de um homem de sessenta anos apresentou uma participação de desaparecimento na mesma esquadra. Disse à polícia que o marido estava em situação grave: o negócio dele tinha falido, as dívidas eram enormes, e antes de desaparecer tinha dito ao filho: «Cuida de ti.»
São sinais de alerta clássicos. Sinais que um agente de desaparecidos com formação não ignora.
O sargento Bu encerrou o processo em cinco horas.
Usou o mesmo truque: afirmou ter contactado o homem, e que este «se recusava a encontrar-se com a polícia, pedia privacidade». Nunca lhe tinha ligado. Nem uma vez.
Cinquenta e um dias depois, a 22 de agosto, o corpo do homem de sessenta anos foi encontrado em Gujwa-eup, no lado leste da ilha. O nome dele era, desde julho, um processo encerrado num sistema que dizia que ele estava bem.
As Participações Rejeitadas


A 17 de julho, o namorado de Jang apresentou uma segunda participação. Foi rejeitada. O sistema dizia que o caso já estava resolvido.
A 19 de julho, a família dela em Seul apresentou uma terceira. Só então se abriu uma investigação a sério — porque a família tinha deixado de esperar pela polícia e começara a publicar a fotografia dela nas redes sociais. Obrigaram olhos a ver o que o sargento Bu tinha apagado.
E a 19 de agosto — noventa e oito dias depois do desaparecimento, quarenta e seis dias depois de reaberta a investigação — a esquadra ocidental de Jeju pediu finalmente as imagens de videovigilância da zona de Hallim-eup.
Havia cento e dezoito câmaras no distrito. Cento e onze câmaras de segurança. Sete câmaras de trânsito. Todas tinham gravado o que aconteceu entre 12 e 20 de maio. Todas tinham um período de retenção de trinta dias. Todas apagaram automaticamente as suas gravações entre 11 e 19 de junho.
No dia em que a polícia as pediu, as gravações já tinham desaparecido havia sessenta e um dias.
Cento e dezoito câmaras que nos poderiam ter dito para onde Jang Mi-ran caminhou. Com quem estava. Se alguém a seguia. Se estava sozinha.
Estão todas vazias agora. Porque o sargento Bu encerrou o processo antes de alguém pensar em pedir as gravações.
A Busca Tardia

A 21 de agosto, quando o escândalo do encerramento falso começou a rebentar na imprensa coreana, a polícia mobilizou finalmente mais de 140 pessoas — guarda costeira, drones, helicópteros, lanchas de patrulha. Busca coordenada na costa de Hallim, por terra e por mar.
Três dias depois, encontraram-na. A quatrocentos metros do quarto dela.
O Palmeiral

Às 9h46 do dia 24 de agosto, encontraram o corpo dela num palmeiral em Suwon-ri, Hallim-eup.
O corpo estava decomposto ao ponto de já não haver impressões digitais. Identificaram-na pelos dentes, comparados com o seu registo dentário, e pela pulseira de ouro ainda no pulso. Os testes de ADN continuam, em regime de urgência. Trazia a roupa com que tinha saído de casa. Os chinelos. O telemóvel.
Na manhã seguinte, entre as 8h30 e as 9h00, foi feita a autopsia. Sem fraturas. A polícia disse não ver sinais de força externa. A teoria de trabalho é que se enforcou.
Mas as palmeiras daquele palmeiral — tamareiras das Canárias, a espécie ali plantada — têm espinhos longos e duros que cobrem todo o tronco. Um residente de Jeju escreveu online, e a imprensa reproduziu: «Seria quase impossível, mesmo para um homem, passar uma corda à volta de um tronco assim. A dor dos espinhos seria muito maior do que aquilo que levaria alguém a tentar.»
O namorado disse à JTBC — e continua a insistir: «Não havia nada, no dia em que ela desapareceu, nem em nenhum dia antes disso, suficientemente difícil para a levar a tirar a própria vida.»
Os resultados finais da autopsia — causa da morte, hora da morte — foram enviados para o Instituto Nacional de Ciências Forenses. Vão demorar semanas.
A Estrutura
Segundo a lei coreana, um adulto só é classificado como «pessoa desaparecida» (실종자) em três casos: menor de idade, deficiência intelectual ou de desenvolvimento, ou demência. Todos os outros — ou seja, qualquer mulher adulta que saia de casa à noite de chinelos — são classificados legalmente como «fugitivos» (가출인).
Sem hora de ouro. Sem prioridade de investigação. Sem busca obrigatória.
Perante a lei, uma mulher que sai de casa às 22h15 é uma mulher que pode ter escolhido desaparecer. E o Estado dá-nos um botão para carregar e concordar com ela.
A Prestação de Contas
O sargento Bu foi preso a 22 de agosto sob mandado de urgência. Três acusações: negligência no cumprimento do dever, falsificação e uso de registos eletrónicos públicos, obstrução ao exercício de funções oficiais por engano.
A 24 de agosto — o mesmo dia em que encontraram o corpo de Jang — o tribunal de primeira instância de Jeju libertou-o. Considerou não haver necessidade urgente de detenção, já que sabiam onde ele vivia.
No dia seguinte, o Ministério Público pediu um mandado de prisão formal. A audiência começou às 14h30 do dia 25 de agosto. Às 18h00, o tribunal emitiu o mandado, invocando risco de fuga e de destruição de provas.
Está agora numa cela. Um dia depois de ela ter saído da dela.
No mesmo dia, realizou-se uma audição na Assembleia Nacional coreana. Do Partido Democrata, o deputado Chae Hyun-il acusou o sargento Bu de tratar processos de desaparecidos de forma ilegal. Do Partido do Poder Popular, a deputada Kim Ye-ji perguntou: «Como é possível que um único responsável por um processo o encerre sem qualquer aprovação ou comunicação?»
O comissário-geral interino da polícia coreana, Yoo Jae-sung, reconheceu publicamente que o sistema o permitia. Disse: «Esta situação não faz sentido.» Anunciou uma medida provisória: a partir de agora, encerrar qualquer processo de pessoa desaparecida exige aprovação manual do chefe de equipa e do chefe de departamento — até o sistema ser totalmente reconstruído.
Depois, a Polícia Nacional coreana anunciou uma auditoria abrangente — não só aos outros 297 processos encerrados pelo sargento Bu, mas ao tratamento de casos de pessoas desaparecidas em todo o país.
Os chefes, antigo e atual, da esquadra ocidental de Jeju, juntamente com o chefe da divisão de investigação criminal e o líder da equipa de desaparecidos — quatro pessoas na cadeia de comando — foram colocados em situação de espera para decisão disciplinar.
Ainda ninguém sabe quantos outros corpos a ilha de Jeju guarda. Ainda ninguém sabe quantos processos, em gabinetes por toda a Coreia do Sul, permanecem encerrados num ecrã, com uma mulher ou um homem por trás deles, que saíram de casa uma noite de chinelos e não voltaram.
Jang
Saiu de casa às 22h15, de chinelos, com uma pulseira de ouro no pulso, e andou dez minutos.
Durante quatro meses, esteve ali. A quatrocentos metros da sua cama.
E um homem, a doze quilómetros de distância, escreveu num ecrã: morte em acidente de viação. E apagou-a.
E cento e dezoito câmaras continuaram a gravar, e depois apagaram-se a si mesmas.
E a família dela teve de abrir a investigação sozinha, a partir de Seul, com os seus próprios dedos, no Facebook.
Agora há um corpo identificado pelos dentes. E uma pulseira de ouro num saco de provas. E um tribunal a discutir um botão que nunca deveria ter existido.
Jang Mi-ran saiu para dar um passeio. O Estado decidiu que ela tinha partido.
A Acusação
Nove dias antes desta atualização, a 18 de setembro, o Ministério Público de Jeju acusou formalmente o sargento Bu enquanto este estava detido. Quatro acusações agora, não três: negligência no cumprimento do dever, falsificação de registos eletrónicos públicos, uso desses registos falsificados, elaboração de documentos oficiais falsos. Se um tribunal o condenar pelo conjunto dos factos, a lei permite até quinze anos.
Quinze anos. Escreva-se esse número ao lado do 298, e reserve-se um momento para medir o que está realmente a ser pesado, um contra o outro.

As Suas Próprias Palavras
Eis o que ele disse aos investigadores, com as suas próprias palavras, quando finalmente lhe perguntaram porquê.
Disse que se «sentiu sobrecarregado com a ideia de ter de entregar o processo» — o processo, ou seja, ela — «porque haveria muito a acompanhar se ficasse em aberto». Disse que tinha «levado o caso de ânimo leve porque a pessoa desaparecida era uma adulta comum».
Releia-se esta frase. Uma adulta comum. Não é um lapso. É toda a estrutura deste texto — fugitiva, não desaparecida, sem hora de ouro, sem busca obrigatória — a sair da boca do próprio homem que a usou. Um perfilador da polícia avaliou-o depois e falou de fadiga, de carga de trabalho acumulada, de responsabilidade crescente. Talvez seja verdade. Não muda o que «uma adulta comum» significou, nas mãos dele, às 21h16 do dia 15 de maio: uma autorização.

O Número
É aqui que tenho de deixar de ter certezas, porque as próprias notícias não mo permitem.
A imprensa coreana diz que a revisão dos 298 casos tratados pelo sargento Bu revelou mais 25 com irregularidades — encerrados de forma falsa, ou apagados da lista de perfilagem da mesma forma que o de Jang. A imprensa de língua inglesa, citando a mesma revisão, fala em 63: casos que nunca chegaram a entrar no sistema, ou cujos registos foram apagados depois. Não sei qual dos números está certo, nem sequer se estão a contar a mesma coisa com nomes diferentes. Prefiro dizer isto a fingir que resolvi a questão. No que os dois números concordam é na forma geral da coisa: isto nunca ia ficar por um único processo.
O País
A 26 de agosto, antes de tudo isto ter sequer um tribunal onde se sentar, o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, levou o assunto à sua própria mesa de conselho de ministros. «A polícia é provavelmente a instituição com mais poder entre as instituições do Estado», disse. «A responsabilidade tem de ser reforçada na proporção da dimensão dessa autoridade.»
Isto não é uma frase sobre Jeju. É uma frase sobre todos os processos encerrados atrás de cada agente com uma password e ninguém a verificar o seu trabalho. A Polícia Nacional coreana está agora a reexaminar cerca de 310 mil casos de pessoas desaparecidas dos últimos três anos — não só os 298 do sargento Bu, não só os casos de Jeju. Todos, em todo o país, ao longo de três anos. E o número dos seus próprios superiores atualmente sob investigação por negligência no cumprimento do dever subiu dos quatro nomeados anteriormente neste texto para oito.
Ainda sem data de julgamento. Ainda sem veredicto. Nove dias não chegam para nenhum dos dois. Mas o corpo foi encontrado. A pulseira está num saco de provas. O sistema que lhe permitiu fazer aquilo está agora a ser desmontado publicamente, por pessoas que não queriam ter de o fazer, porque uma família em Seul se recusou a parar de procurar. Isso, pelo menos, já não está em causa.
